A superexposição pessoal no novo milênio

Confesso, estou preso em uma rotina da qual dificilmente conseguirei largar. Todos os dias, acordo por volta das 6:30 da manhã e a primeira coisa, após olhar pela janela do meu quarto para ver como está o tempo lá fora, é pegar meu celular, ligar o wi-fi e ficar olhando para a tela por certa de 1 minuto enquanto todas as notificações carregam. Devo estar preso nessa rotina desde 2012, quando ganhei meu primeiro smartphone. Naquela época, no início desta década, o acesso às redes sociais já era algo totalmente comum para as pessoas. Já havíamos migrado do Orkut para o Facebook e os aplicativos de mensagem instantânea para celulares estavam começando a se popularizarem. Whatsapp, Snapchat e Instagram ganharam uma leva de adeptos de uma forma tão rápida que acredito que nem mesmo seus criadores tinham noção da horda de usuários que conquistariam. A imagem abaixo mostram as atuais estatísticas com relação ao número de brasileiros conectados na rede.



Mas por que eu comecei falando sobre a rotina na qual estou preso? A questão é que sou um hipócrita. Eu detesto, de verdade, isso que eu faço. Eu detesto entrar em redes sociais para ver o que as outras pessoas estão fazendo em suas vidas pessoais. Mas a questão é mais profunda que isso: por que as pessoas passaram a se expor dessa maneira para que gente aleatória como eu possa observar

No final de 2010, quando os smartphones sequer existiam para a população no geral, acessávamos as redes sociais em nossos desktops. Fazíamos isso geralmente em casa ou no trabalho, quando dava. Não estávamos conectados 24 horas por dia. Apesar da exposição ainda acontecer, ela não era massiva ao ponto de eu saber exatamente o que você está bebendo ou comendo agora, já que você postou nos stories do Instagram e/ou do Whatsapp. Isso já se tornou algo cultural. É extremamente improvável, por exemplo, encontrar um adolescente hoje não compactue com esse comportamento (afinal, se ele já é comum para a geração dos anos 90, imagine para quem nasceu no novo milênio).

A necessidade de nos comunicarmos é algo inato ao nosso ser. Todavia, a forma como o fazemos depende muito de processos culturais e históricos. A questão é que vejo que atingimos um nível de superexposição de nossas vidas pessoais que está muito além de nossa real vontade de simplesmente nos expressarmos. Chegamos em um nível que esse tipo comportamento trás muito mais malefícios do que qualquer outra coisa. Não simplesmente estamos mais compartilhando nossos pensamentos ou ideias como fazíamos nos blogs no início dos anos 2000, estamos tornando nossa vida online.



Para finalizar minha crítica, deixo o vídeo acima. Ele é antigo, de 2012. É uma campanha belga que alerta sobre os riscos de exposição de dados pessoais (incluindo dados bancários) na internet. O engraçado é que muita coisa mudou de lá pra cá. Diferentemente ao que foi mostrado no vídeo, para termos acesso, hoje em dia, aos lugares por onde determinada pessoa esteve, às pessoas com quem ela conversou, aos assuntos sobre os quais elas discutiram, aos sentimentos compartilhados e às informações trocadas, não é necessário ser nenhum hacker. Eu faço isso todos os dias, às 6:30 da manhã, olhando para a tela do meu celular.

Postagem referente à aula do dia 03/09/19.

Comentários

  1. Pois é Gabriel, a gente pensa: 2012 já passou faz tempo! Muita coisa mudou! No entanto, parece que uma coisa não muda: nossa conscientização sobre o significado e as implicações de nos expormos em rede. A sociedade necessita de processos formativos sobre esses novos meios, sobre as potencialidades do digital, sobre os interesses que estão em jogo nesse contexto de redes. Talvez um pequeno gesto de cada um possa começar a fazer a diferença: não mais olhar, curtir o que os outros estão fazendo... é difícil, mas não impossível!

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