Uma reflexão sobre o currículo de Física nas escolas

As discussões sobre o uso da internet e a necessidade de adotarmos uma melhor metodologia ao utilizarmos o livro didático me lembrou um artigo de José Chiquetto que busca criticar o currículo (especificamente de Física) adotado pela maioria das escolas.


Fonte: Abre Livros

É notável como a Física é apresentada aos alunos como um mero conjunto de fórmulas destinadas a resolverem problemas específicos que caem em alguma prova. Na maioria das vezes, ela não é contextualizada nem com a natureza nem com o cotidiano. O autor mostra que essa característica não é nenhum pouco atual: ela remonta aos primeiros programas de vestibulares do início do século XX, quando passou-se a se preocupar com ciência nas escolas. Tristemente, ao compararmos esse programa com o currículo atual, vemos que as diferenças são meramente conteudistas. O ensino médio naquela época era visto simplesmente como uma etapa preparatória para a universidade: nada mudou.

Para criticar o status-quo do ensino, o autor vale-se da analogia da concepção bancária da educação ao parafrasear Paulo Freire, explicitando a forma como nosso currículo sempre colocou os alunos em uma posição passiva enquanto meros receptores de conhecimento. Enquanto que no passado isso era visto como uma espécie de rito que a elite intelectual deveria passar para ter acesso ao ensino superior, hoje em dia se configura como uma enorme barreira à maioria que não consegue se adequar a essa metodologia, dificultando massivamente a entrada de pessoas na universidade. Também foi apontada outra consequência do ensino enquanto transmissão de informação com fim em si mesmo, que é o desestimulo ao erro. Enquanto que para a ciência o erro é um elemento fundamental na construção de novos conhecimentos, desde sempre nossos alunos são pressionados a não errarem: o erro é penalizado, não é pontuado e te desclassifica.

Tendo em vista toda essa problemática, Chiquetto traz como exemplo alguns momentos em décadas passadas em que se tentou combater essa forma tradicional de ensino. É o caso do Physical Science Study Committe (PSSC), projeto lançado em 1954 nos EUA com a finalidade de ampliar e aperfeiçoar o público de estudantes interessados em pesquisa científica através da disponibilização de recursos (especialmente experimentais) para esse tipo de educação. No Brasil, diversos projetos inspirados no PSSC também foram lançados em décadas posteriores, como o Projeto de Ensino de Física (PEF). Tentativas de se mudar essa realidade de fato ocorreram, a questão é que a inércia não foi de fato vencida em nosso país. A maioria dos professores convidados a se envolverem nessas novas metodologias simplesmente não sabiam como atuar devido a deficiências em suas próprias formações. Assim, lecionar um curso de Física de maneira tradicional era muito mais confortável (e é o que ocorre até hoje).

Foi somente com a instituição da LDB e dos PCNs no início desse século que essa realidade passou a ser questionada e posta à prova (ao menos no papel). As leis que regem nossa educação concebem sempre nossos alunos enquanto cidadãos que merecem ter sua criticidade, sociabilidade e visão de mundo estimuladas de forma efetiva, algo que a tradicionalidade de nosso currículo não contempla. O problema é que, como o autor bem aponta, não há qualquer fiscalização ou estimulo (financeiro e intelectual) por parte dos órgãos governamentais para que essa visão seja aplicada.

Essa falta de investimento em formação reflete a problemática do uso dos livros didáticos e das salas de informática para acesso a internet como meras "muletas" para uma aula sem qualquer tipo de metodologia.

Como podemos solucionar essa situação?

Postagem referente à aula do dia 03/12/19.

Comentários

  1. não é que não haja metodologia. A metodologia é a da transmissão, da memorização. O que precisamos é de metodologias ativas, que oportunize aos sujeitos da educação serem autores, produtores de conhecimentos, e não meros receptáculos de informações.

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